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Os limites nas crianças

Vivemos em um tempo no qual muitos pais encontram dificuldades para fazer valer regras simples em suas casas e de reações intensas por parte das crianças às restrições que lhes são impostas. Em parte, isto se deve às mudanças culturais nas quais predomina a ideia de satisfação sem limites; objetos acessíveis, rapidez, imagens de completude e felicidade. Esta contingência em nada facilita a vida aos pais na tarefa de transmitir a lei que permite a organização psíquica de seus filhos. Os pequenos passaram a poder fazer tantas escolhas, pedidos sem fim, exigências, que chegam a desorientar os pais sem saber quando e como parar. As supostas necessidades das crianças, seus aparentes desejos, passam a determinar parte do funcionamento das famílias e modos de satisfação para todos.


Da outra parte, cada um traz consigo as marcas da própria história com as faltas inerentes à vida, as proibições, as interdições, o modo como admitiu psiquicamente submeter-se às regras; o que as crianças captam e aprendem espontaneamente na relação que vivem com seus pais.


Reunidos tais elementos, fica evidente como se tornou mais trabalhoso sustentar os limites e as leis que vão organizar todo o campo psíquico e social das crianças, inclusive pelos pais estarem igualmente imersos nas promessas de realização que a cultura atual oferece. Vemos pais desacomodados nos modos de dar limites e cuidar, buscando apoios de vários tipos em prol das melhores condições de desenvolvimento para os filhos, mas significativamente desamparados. Por sua vez, a criança sinaliza através de manifestações e sintomas justamente o andamento desta transmissão fundamental que organiza seu modo de estar no mundo, tais como a birra, descontroles, insatisfações, falta de limites, recusa às regras.


Na birra a criança demonstra insatisfação, mas exibe concomitantemente um possível atravessamento em curso da ideia onipotente de que ela pode se realizar em tudo que imagina. Quando eventual ou circunstancial, sendo possível restabelecer-se com palavras ou outros interesses, aponta a separação necessária para a criança suportar o que lhe falta, buscando tornar válidos seus interesses. Entretanto a birra diária, desesperada, exigente, na qual a criança parece não conseguir encontrar o ponto onde parar, o limite que regula o que lhe é possível provoca mal estar a todos e dificulta as trocas.


Julia chora tanto que assusta quem está ao seu redor após lhe ser retirado o brinquedo. Descontrola-se, mas, pouco depois, encontra outro interesse, passando a brincar. João, ao ser contrariado, permanece todo o passeio irritado, sem falar, precisando muito suporte para retomar suas interações e voltar à brincadeira. Luana deixa a todos em sobressalto pois, ao mínimo imprevisto, a choradeira e birra parecem intermináveis. Exemplos de modos diversos de como a criança faz suas negociações íntimas com o que suporta que lhe falte. Ao encontrar um limite, a criança convoca os pais no modo como estes vivem o que lhes falta, isto é, relembra como foram marcados em seus próprios limites.


Dar limite é mais do que subordinar a criança às normas, fazê-la obediente. Trata-se de transmitir esse jogo essencial da vida, o que se faz com o que se perde. E começa cedo! O bebê pode aprender a esperar, se acalmar, ficar só, depende dos atos de quem cuida.


“Dar o que não se pôde ter” é o desejo de muitos pais. Ver o filho ter o que não tiveram ou gozar do que não gozaram, seja bem material, educação ou qualquer outra coisa, pode atrapalhar o distanciamento necessário para um filho se descobrir, pois a sua realização passa a ser a de todos. Como “O pequeno mestre da casa”, a criança se desregula facilmente, já que aprendeu a tentar satisfazer continuamente a si e aos outros. A insatisfação pode ser um dos modos de procurar os limites.


Há o que a criança traz consigo ao nascimento, mas seu lugar no mundo, a partir dos limites que encontra, será inicialmente com os outros que poderá construir para só então buscar seu rumo!

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